sexta-feira, 1 de março de 2019

DIssonâncias cromáticas em Composição IX

Uma das questões percebidas nas análises de Composição IX é o da dissonância cromática :
"Whatever concerns about chromatic dissonance Kandinsky had been harboring in 1934, he clearly set them aside two years later for the making of Composition IX (Figure 46 / Plate 21). The color combinations in that work—delicate pastels placed alongside black and various highly saturated hues—are exceptionally jarring, perhaps more so than in any other composition by the artist. Even in comparison with the opposed primaries of his early paintings, the contrasts here register as highly dissonant, the extreme disparities in saturation and value clashing far more than equally weighted primaries ever could."Lisa Florman Concerning the Spiritual... p. 134.  
Temos pois dissonâncias cromáticas extremas, que seriam respondidas por dissonâncias musicais extremas. "

Lembra a tabela do artigo de Neda Kolic:



 e
Pelo  espectro acima, temos que 

1- o primeiro triângulo opera com acordes relacionados aos naipes de metais, especialmente trompetes, podendo acrescentar percussão com altura definida (Bells) e violas. 
2- a primeira faixa diagonal opera com variações de azul, misturada a verde, que são de  violino em frequência média. Podemos começar com esse verde violino médio, depois acrescentando acima das cordas as flautas. 
3- a segunda faixa parte de uma mistura de laranja com vermelho para ir vicando mais vermelho até chegar a um vermelho mais escuro. Temos aqui três mudança. novamente tempos percurssao, violas trompete tubas e cello. 
4- a terceira faixa temos variações de vermelho: bordô e Borgonha. Temos uma semelhança com a faixa anterior, mas com mudanças de matiz, saturação e intensidade. Há pois relação entre as cores das faixas e as cores dentro de cada faixa.  Há um pouco de violeta por aqui...
5- A quarta faixa vai do laranja mais claro ao mais escurso. 
6- Ao fim temos o triângulo verde claro com bordas ligeiramente amareladas. violino com trumpete.


Essa é uma questão. Essas grandes áreas, que se tornam o background da tela, são atravessadas por figuras. Assim teríamos que ver a sucessão da esquerda para a direita do background e  irrupção das figuas com suas cores também.
Antes,  como o background de triágulos e faixas é mais estável, pode-se dele constituir uma ordem temporal, dividindo primeiramente a tela nas linhas entre as áreas dos triângulos e faixas. Tal ordem induz à minutagem dos eventos que se sucedem e a proporção de sua presença (duração). Como em um palco, agentes vão entrar e sair do palco. COmo em uma música, instrumentos vão sair e entrar.
Outra característica possível dessa ordem temporal horizontal é sua contrapartida vertical, que posiciona e distribui os elementos podendo tomar como parâmetro o arco crescente de frequências.
Como nas vemos que as faixas diagonais se articulam de baixo para cima em uma mudança de valor (mais luminosidade, etc). podemos adotar a correlação entre crescente na cor e o crescente na frequência do som. 

Lembrar que Kandinsky havia trabalhado inversamente com isso ao discutir o plano básico ou fundamental, como momento de pré-composição em que se explora decisões criativas a partir da geometria mesma da própria moldura do quadro.

Outra tabela semelhante é o Spectrotone, desenvolvido por Arthur Lange em 1943 e retomado por Peter Lawrence em 2012. 



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Som, água e imagem



Alguns materiais nos apontam para uma biografia sobre o tema

1- Water Sound Images: The Creative Music of the Universe

, de Alexander Lauterwasser, apresenta imagens de experimentos a partir do estudos do cientista alemão Chladini e suas figuras geradas a partir de vibrações em placas de metal cobertas com areia.

2- Kahn, Douglas - Noise, water, meat _ a history of voice, sound, and aurality in the arts-The MIT Press (1999).
Nesse livro, Kahn, entre outras coisas, discute a divergência de Kandinsky ao projeto mimético de Wagner que correlacionava o motivo musical a uma imagem visual.  Segundo Kahn, "suffice. Although music was for Kandinsky a powerful model for nonrepresentation, this produced a second-order imperative to avoid the representation of music." p. 106. 
"His change of heart toward Wagner pivoted on an association with the already degraded form of program music—that is, exercises in extramusicality using musical instruments unsuited to the task. This inadequacy of musical technology and thought consequently restated the perception of an ingrained difference between sound and musical sound."106.
 
Ainda "Similar to the general tactic of avant-garde musical noise with its exchange along a correspondence between the areferential sounds outside music and the noisy elements already existing within musical sound, Kandinsky circumvented imitation by setting up conduits of cosmic vibrations behind apparent reality."p. 107. 
 
 

Iannis Xenakis - Metastasis


O vídeo da obra https://www.youtube.com/watch?v=SZazYFchLRI traduz os movimentos escritos na partitura https://monoskop.org/File:Xenakis_Iannis_Metastaseis_B_1953-54_score.pdf  em visualizações de suas texturas. Interessante observar as linhas diagonais formadas pelos glissandi, e a descontinuidade ou formas livres por meio contínuas interrupções de saltos intervalares e tremolos, pzicattos e outras técnicas. 

Composição IX handlist versus quadro




O desenho de Kandinsky demonstra a retomada de alguns elementos importantes da pintura:
a- as 5 linhas diagonais formando as 4 áreas/faixas coloridas estão presentes, mas não tão evidenciadas no traço, sugerindo algo de segundo plano.
b- o conglomerado centra de formas ocupa o centro de atenção, formando uma série horizontal que começa com o retângulo-caixa da qual saem faixas-linhas para cima e para baixo e o círculo. O interessante é ver como as linhas mesmas do caderno funcionam como localizadores dos objetos distribuídos no quadro.
c- Esse aglomerado é constituídos por elementos que vão sendo adicionados, formando algo em camadas. Há os elementos mais externo, os mediais e os mais internos.
d- O gride do caderno mesmo nos ajuda a ver como o quadro está dividido em 4 partes, sendo que há uma maior densidade de elementos do meio para cima.
e- lendo como uma partitura, podemos ver o seguinte:
1-uma sucessão de eventos na ordem temporal, indo da esquerda para a direita.
2- o começo é marcado pela primeira faixa, que no quadro é um azul claro combinado com verde claro e que vai perdendo esse verde e ficado mais azul celeste. (10BG para 10B).
3- lendo verticalmente, esse primeira faixa é simultamente colocada junto da aparição de outros elementos - no extremo alto esquerdo um pequeno círculo com um outro círculo menor dentro e imediatamente abaixo uma caixa, um retângulo com figuras de embrião e no centro um retângulo-cartela, dividido como uma lista ou incrição dupla. Do retângulo projeta-se ainda algo como um rabo duplo na parte de baixo, e uma outra cartela horizonte em cima.

Aqui começam algumas divergências entre o desenho e o quadro:
1- a faixa diagonal azul-verde sai do extremo baixo esquerdo e vai para o alto ao meio. Em alguns momentos essa faixa é passa por trás de algumas figuras, provocando simultaneidades. No desenho o círculo que na horizontalidade vem após o retângulo-caixa encontra quase que todo dentro da primeira faixa, diferentemente do quadro que posiciona o círculo entre a primeira faixa e o triângulo amarelo. Ainda, a faixa primeira absorve uma dupla de de embriões que ficavam no triângulo amarelo.
2- Se a faixa azul parece exercer uma maior atração de elementos no desenho que na pintura, ela também "perde": outro elemento que na pintura é compartilhado, como a dupla cartela entre as faixas azul e vermelho, agora se concentra em uma faixa apenas - a segunda faixa.
3- Depois pois dois deslocamentos para a direita, mais para o centro, pela atração do aglomerado central médio-alto que toma conta das faixas 3 e 4.  E este deslocamento apaga as estratatégias de ementos compatilhados proporcionais entre entre áreas de cor dominante.

Voltando ao gride do caderno, mais exatamente, temos, no lugar de um retângulo dividido em 4 partes iguais, 4 contínuos extensos horizontais, a seguinte distribuição:
1/2
1
1
1
1/2
Os extremos alto e baixo são constituídos por contínuos extensos horizontes que se equivalem, sendo a metade de cada um contínuos internos. Olhando com mais detalhe, os extremos alto e baixo são aproximadamente complementares em posição e tamanho, pois não são exatamente iguais: o filete debaixo é menor, levando a uma maior ênfase no filete de cima, que puxa a pintura para o alto, para fora da moldura. Lembrar que isso corrobora a maior densidade de elementos na parte de cima do quadro.


Ora, aplicando as ideias contidas no Plano e Linha sobre o Plano, podemos ler a tela como uma partitura, valendo-nos de procedimento leitura de uma partitura.
As decisões criativas no plano sonoro podem buscar alguns equivalentes no plano visual.

1- Sucessão de elementos (temporalidade)
2- densidade da distribuição dos Elementos ( verticalidade)
3- altura/frequência dos elementos por meio de sua posição no eixo vertical
4- timbre, por meio das cores e tamanhos dos elementos
5- intensidade, por meio do tamanho/extensão de elementos

Há ainda outras considerações como as características gerais do quadro, como um ambiente meio líquido nas cores e nas figuras de embriões apresentadas( formas biomórficas).
Outra coisa a considerar: o pintor fez apenas um estudo preparatório para o quadro:


Neste esboço estão claras as linhas que produzem as faixas, os triângulos opostos ( alto esquerdo/baixo esquerdo), e a sucessão horizontal de 4 figuras que dominam o quadro: a caixa com seu embrião hipocentauro nela grudada; a figura geométrica do círculo posicionada entre o triâgulo superior e a primeira faixa; o aglomerado bioluminescente central; e o peixe-concha .
O esboço apresenta praticamente os mesmo elementos e sua distribuição como apresentados na pintura, sendo, de fato, bem marcante a desproporção entre a área do triângulo inferior direito quanto ao esquerdo.
Vendo o esboço, ainda, ficam bem evidentes a forte presença de grides distribuídos pela tela.

Então, temos faixas ascendentes paralelas, em momento de cima para baixo, que começam e terminam. Lembram lentos glissandi. E temos figuras tanto biomórficas quanto geométricas. Podemos pensar em uma 'narrativa' de primeiro plano que é a sucessão das quadro figuras em contraponto com as quatro faixas diagonais. E entre elas temos outras formas livres, como diversos grides, linhas paralelas onduladas, a duplicação da cartela que está na primeira figura-caixa, e um pequeno aglomerado de círculo, um mini-sistema estelar na direita, extema ao meio.

Lista de elementos que precisariam ser evidenciados:

1- a estrutura geral do quadro, com suas 6 áreas (4 faixas e dois triângulos)
2- as cores dessa estrutura geral,
3- as sucessão das 4 figuras dominantes em sua ordem e constituição (formas, figuras, cores)
4- as figuras demais figuras que partem dessas dominantes ou estão livres pelo quadro, com suas formas, elementos e cores).



Numeração Catálogo Kandinsky

Kandinsky anotava um cronologia de suas obras em um caderno. Para cada obra um desenho e informações. Para cada obra, um número. Eis os números relacionados com as Composições

Lista composição Kandinksy


COMPOSIÇAO I. N. 92
COMPOSIÇÃO II. N. 98
COMPOSIÇÃO III N. 112
COMPOSIÇÃO IV N. 125
COMPOSIÇÃO V N. 144
COMPOSIÇÃO VI N. 172
COMPOSIÇÃO VII = N. 186
COMPOSIÇÃO IX= 626

COMPOSIÇÃO X  655

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Composição IX

De fato agora é a penúltima obra a ser composta, penúltima tanto do ciclo de Kandinksy, quanto meu.



Temos as famosas 4 listas diagonais e no centro algo que se assemelha a um feto e um coração. Mas há vida marinha e microscópica orando em volta. É de fato um quadro mais aquático, esse mundo interno ao mundo.
"As formas, semelhantes a decalques flutuando na superfície, contrastam com essa afirmação ousada de diagonais coloridas. Estes são cartuchos sobrecarregados, detalhes refinados."Christian Derouet


"

Unquestionably, the picture shows a complex organization, and certainly, it is unique in its use of the wide diagonal stripes as a background against which are superimposed shapes that are both geometric and amorphous, biological and abstract. The diagonal stripes bring to mind symbols of the successive chords in a musical piece. Some of the floating geometric forms — the squares, rectangles, and narrow parallel planes — recall the configurations of Suprematism, but the rigid geometric structure is counteracted by the floating amorphous elements that create a compositional tension. An almost pastel color scheme adds to the work a sense of playfulness, making a special universe of forms in flux.
The complexity of spatial organization in Composition IX is quite different than that of Composition
VIII, where the pale, almost white background creates a sense of infinite space. Here the space is blocked off by the solid diagonal stripes of color and diverse overlapping shapes that float in front of the pictorial plane, creating a horizontally layered and ambiguous space. Forms and colors play equal roles in ambiguities of tension and space. The precision, clear graphic form, and the light hues of color contribute to the controlled expressive energy of Composition IX. But there is something soft and ornamental about this canvas, which, no matter how attractive its formal arrangement and stylistic change, does not equal the explosive strength of the early pre-war Compositions.
The picture seems to respond to Kandinsky's ideas about the merits of abstract painting, expressed in his "Reflections on Abstract Art," published in Cahiersd'Art in Paris in 193 1 and written while he was at the Bauhaus in Dessau (1925-33): "Abstract painting can,
of course, in addition to the so-called strict geometrical forms, make use of an unlimited number of so-called free
forms, and besides primary colors can make use of an unlimited quantity of inexhaustible tonalities —each time in harmony with the aim of the given image." Dabrowski, 50-51.


As faixas diagonais são acordes sucessivos. 4. Uma progressão.




FInalização COmposição X

A composição dos dois primeiros minutos foi bem rápida: em dois a três dias. a parte final demorou o dobrou. Creio que a maneira de se trabalhar sem uma concepção orgânica, de um conceito de coerência da obra a partir de uma unidade temática, e ainda um certo descolamento da pintura me geraram essa dificuldade. Pois estava a produzir novos materiais o tempo inteiro e isso ia ficando cansativo, ainda mais pelo fato de se trabalhar com o fator tempo - produzir mais em uma intensificação temporal.
Mas creio que temos alguns processos, que se aproximação de um realização mais performativa:
1- o papel da escuta é fundamental, tanto na identificação de seções, formas, materiais sonoros, quanto na percepção e sua fadiga por superestimulação.
2- jogo rítmico de retomadas e paradas no meio do nada, quando parece não se ter lugar para ir e nem de onde partir. Temos os atos de ir acumulando materiais, e os atos de revisão de ir construindo materiais sobre esses materiais, seja como ligações, ênfases ou enriquecimento.